O senhor fez muitos concursos antes de passar para a magistratura federal?

Fiz alguns, acho que o número total foi de sete. Eram todos para carreira da Magistratura ou do Ministério Público, seja da área federal ou estadual. Em meu tempo, era comum ter as vezes até dois concursos por ano na mesma carreira. Não tenho nada contra as demais carreiras, mas é que eu já tinha um bom trabalho como advogado, inclusive bem remunerado. Para continuar fazendo a mesma coisa, eu permaneceria onde já estava.

 

Há quanto tempo o senhor era formado quando passou no concurso?

Eu me formei na Universidade Católica de Petrópolis em 1998 e passei no primeiro semestre de 2002. Mas só comecei a me dedicar realmente aos concursos a partir do ano 2000. Em 1999, tinha casado, mudado de cidade, enfim, era uma nova vida que estava começando.

 

Foi um aluno dedicado na faculdade?

Sinceramente, não. Era muito jovem. Acho que comecei a faculdade de Direito com dezessete anos e que me formei com vinte e dois anos. Então a cabeça era um pouco diferente, sem muita noção de algumas dificuldades da vida. Mas tudo sempre foi meio precoce e o concurso acabou vindo com vinte e cinco ou vinte e seis anos. Mas, voltando a pergunta, eu realmente só comecei a me dedicar mais na faculdade lá pela metade, pois começaram algumas matérias que eram mais práticas. Dali em diante, tive boas notas e realmente comecei a me esforçar.

 

Foi adotado um método de estudo específico durante o período dos concursos?

Penso que concurso tem um pouco de auto-conhecimento. Então aquilo que funcionou comigo, pode não necessariamente funcionar com outra pessoa. Se a pessoa lê quinze minutos e se cansa, ela não pode fugir disso. Então é melhor ser sincera consigo e programar o seu tempo em quinze minutos de estudo e quinze de descanso e assim sucessivamente. Outra coisa que eu gostava de fazer era estudar em locais distintos, pois associava a matéria ao lugar. Idem em relação a professores, achava que ficava mais fácil lembrar a matéria ao pensar na pessoa. E também achava importante estar presente o sentimento de culpa, por não estar estudando todo o tempo possível. Mas claro que isso tem que ser na medida certa, para que possa ser usado como motivação. Tem momentos que o medo também paralisa. Em suma: é importante estar atento a si.

 

E como fazer para não esquecer o que já foi estudado?

Bem, além da dica já mencionada de associar o estudo a lugares ou pessoas, creio que é muito importante a pessoa aceitar que o caminho do concurso é longo e difícil, sem possibilidades de cortar caminho. Assim é o estudo, pois realmente não adianta ler e esquecer. Criei alguns métodos para não esquecer como, por exemplo, me impor desafios diários de leitura (ex.: 100 páginas em um dia), que eram sim cumpridos. Aliás, eu sempre pensava na seguinte frase: “quanto pior, melhor”. De certa forma, me motivava. Também rabiscava muito os livros, assim como fazia dobras nas páginas e resumos nas contra-capas para ressaltar as informações que eram mais interessantes. Assim, quando pegasse o livro novamente, não precisaria ler tudo novamente, mas apenas aquilo que era o essencial.

 

Qual era a sua matéria preferida? E qual não suportava?

Eu sempre gostei de matérias que tivessem um desdobramento lógico, como as que tratam das ciências processuais. Direito processual civil sempre foi a preferida. Não gostava de estudar qualquer assunto relativo a direito de família. Mas candidato não pode se dar ao luxo de não querer estudar algumas matérias. Pelo contrário, ele deve reforçar o estudo nestas. “Quanto pior, melhor”.

 

Durante o estudo, teve que abdicar da sua vida social?

Passou muito rápido. Eu achei que não tive que abdicar nada. Na realidade, estava muito focado na tarefa e realmente não senti ausência de vida social, muito embora eu lembre que continuava a sair, mas com redução para apenas um dia na semana. Tive a sorte de ter uma esposa compreensiva que me estimulava a estudar. Ela em momento algum criou qualquer tipo de obstáculo. Acabou vivendo o meu momento. Hoje, eu já acho que seria mais difícil. Nasceu meu filho e quero ter o meu tempo disponível com a minha família. Agora, acho muito importante a pessoa praticar atividade física. Concurso não é desculpa para sair de forma ou não se cuidar. É muito perigoso a pessoa não se cuidar e também não passar, pois isso acaba deixando-a fragilizada demais.

 

Atrapalha ou ajuda ter que trabalhar durante o estudo para o concurso?

No meu caso específico, trabalhar só ajudou. Eu via a parte teórica e aplicava na prática, assimilando tudo melhor. E, claro, tinha o sentimento de culpa por não estar estudando tanto quanto os outros, o que me fazia aproveitar ao máximo os momentos livres. Acabou me estimulando para me igualar aos outros que tinham o tempo mais livre. Mas, hoje já percebo que ter tempo livre não é sinônimo de bom aproveitamento. Algumas pessoas tem urgentemente que se afastar de algumas armadilhas que criam para si mesma. Uso da internet e programas de interação social atrapalham muito. Não precisa cancelá-los, mas somente dosar o uso.

 

Estágios ajudam?

Muito. Como o sujeito pensa em ser juiz se não sabe fazer sentença? O estagiário somente tem que lembrar que está ali não para ajudar o juiz ou o cartório, mas sim para ajudar a si mesmo. Se me colocassem para redigir ofício, largaria o estágio no dia seguinte. Eu queria aprender, ler processo e fazer sentença. Eram umas quatro ou cinco por semana. Eu fazia a noite em casa, pois meu estágio não era “físico”. Durante o dia e tarde eu trabalhava ou estudava. A noite é que podia ler o processo e redigir as sentenças.

 

Qual era a maior dificuldade durante o período de estudo?

Sempre foi a falta de tempo para fazer tudo o que quer. Aliás, isso permanece até hoje. Mas também me recordo do peso do concurso. Da dúvida se um dia vai ou não passar, se o esforço será recompensado e se tem alguém lá encima olhando tanta renúncia. Medos existiam. Mas a melhor forma de combatê-los era simplesmente não dar muita atenção e usar o tempo de forma mais positiva: estudando.

 

Já teve vontade de largar os estudos diante de um insucesso nos concursos?

Eu sempre pensava que agüentava o tranco, que agüentava a reprovação. Tem momento em que a pessoa sabe que chega no seu limite. Eu emagreci muito durante o concurso, eu meio estava em estado de guerra mesmo, com um único objetivo. Durante uma segunda fase, uma lembrança pesada era eu tomando remédio para dor de cabeça a noite para que pudesse continuar estudando. Não pensava em desistir ou largar, mas sempre lembrava que: “Se um dia pesar muito, eu desistirei e não vou ter vergonha alguma. Mas, enquanto estou aqui, vou dar até a minha última gota de sangue”. Pensar assim de certa forma me fazia continuar a ir em frente, pois eu sabia que tinha essa opção para ser exercida a qualquer momento.

 

Uma última mensagem?

Este período da vida pode trazer belas vivências. Mesmo no meio em que há tanto poder, há um  leve sentimento de esforço autêntico, de garra e de camaradagem sincera que envolve aqueles que realmente optam em se dedicar de corpo e alma a algo. Achei que o meu tempo de estudo até a aprovação foi muito rápido, no sentido de que foi como um fechar e abrir dos olhos. “Viu? Já se foi”. Aproveitem e tentam encarar a meta com respeito, esforço e leveza.